EM CONTEXTO

Debate da RPC: entre ataques e discursos prontos

O debate que vimos na Globo entre os candidatos a governador do Paraná deixou a sensação de que é mais importante saber em qual time jogar do que mostrar por que deve vencer.

O último debate entre os principais candidatos ao Governo do Paraná poderia ter colocado frente a frente projetos diferentes para o estado e mostrado ao eleitor o que cada um pretende fazer se chegar ao Palácio Iguaçu. Mas o contexto não foi bem esse.

Requião Filho

Dos três, foi quem pareceu mais à vontade. Falou com calma, usou bem o tempo e alternou ataques aos adversários com propostas voltadas ao eleitorado de esquerda e centro-esquerda. Na minha percepção, foi também quem menos tentou escapar das perguntas.

Isso não significa que tenha abandonado o discurso preparado. Requião sabia a quem queria falar e falou diretamente a esse público.

Sandro Alex

Sandro pareceu um pouco mais nervoso. Sua estratégia girou em torno da defesa do atual governo, do qual faz parte politicamente, e de ataques aos adversários, principalmente a Sergio Moro, mas também a Requião Filho.

Em vários momentos, pareceu mais preocupado em voltar ao roteiro da campanha do que em responder ao que foi perguntado. Do ponto de vista eleitoral, é compreensível: ele representa a continuidade e precisa explorar essa associação. O problema começa quando o roteiro ocupa o lugar da resposta.

Sergio Moro

Moro pareceu perdido em alguns momentos. Também seguiu um roteiro, agora com outro objetivo: reforçar o alinhamento com Bolsonaro e falar diretamente a esse eleitorado. Como Sandro, fugiu de algumas perguntas para voltar aos temas que queria abordar.

O combate à corrupção apareceu com força, o que era esperado diante de sua trajetória e da imagem construída desde a Lava Jato. Mas há uma pergunta que precisa ser feita: para governar o Paraná, falar em combate à corrupção não basta. É preciso apontar quais são os problemas concretos do estado e quais mecanismos serão usados para enfrentá-los.

Sem isso, o discurso serve mais para reforçar a identidade política do candidato do que para tratar das questões administrativas do Paraná.

Luiz França fez falta

E não foi uma ausência qualquer. Quando três candidaturas concentram praticamente toda a atenção, é justamente a voz de fora desse núcleo que tem mais chance de quebrar o roteiro: trazer assuntos que os favoritos preferem evitar, fazer perguntas que não estavam combinadas e oferecer ao eleitor uma alternativa real.

Não se trata de dizer que a presença de França mudaria tudo, mas é preciso reconhecer que um debate com mais perspectivas é, por definição, um debate melhor. Em uma disputa que tem um representante de cada um dos principais candidatos a presidência e um representante do atual governador, o eleitor que não se sente representado pelos três nomes em cena ficou sem ouvir quem poderia falar a ele.

Cabe lembrar que debate não deveria ser privilégio somente de quem tem representantes no congresso. Quanto mais estreito o palco, mais previsível o espetáculo.

No fim, cada um falou para a própria bolha

Talvez seja o melhor resumo da noite. Requião falou para quem já está perto do seu campo político. Sandro buscou representar a continuidade do governo. Moro reforçou sua identidade e sua proximidade com Bolsonaro.

Entre uma resposta e outra, surgiram acusações, números e aquele velho convite para que o eleitor "pesquise depois".

Mas debate deveria servir justamente ao contrário. É o momento em que o candidato apresenta a informação, explica o contexto, sustenta o que afirma e permite que o adversário conteste. Quando todos chegam com discursos feitos para confirmar o que o próprio eleitor já acredita, o debate deixa de esclarecer e vira mais uma extensão da campanha.

Quem ganhou?

Não acredito que dê para afirmar isso objetivamente. Cada eleitor tende a encontrar bons motivos para considerar vencedor o candidato com quem já se identifica.

E quem perdeu?

Na minha leitura, o paranaense. A poucos dias da eleição, tivemos muita campanha eleitoral dentro de um debate e pouco debate sobre o Paraná.

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