EM CONTEXTO
O que esperar para o segundo turno?
O eleitor brasileiro escolheu um lado. E não é o das propostas.
O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 deixou uma mensagem de que, boa parte do eleitorado parece mais preocupada em impedir a vitória de quem rejeita ao invés de escolher um projeto de país.
O debate sobre propostas, reformas e soluções para os problemas brasileiros acabou ficando em segundo plano. Mais uma vez, a eleição se transformou em uma disputa entre dois grupos que, antes de convencer o eleitor de suas qualidades, procuram convencê-lo dos defeitos do adversário.
E o resultado foi uma eleição em que Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Juntos, concentraram mais de 92% dos votos válidos, deixando pouco espaço para qualquer alternativa.
Mas, até onde o eleitor brasileiro está disposto a votar em alguém apenas para impedir a vitória do outro?
Lula parece ter encontrado seu teto
Lula chegou ao primeiro turno como o único representante claramente identificado com a esquerda entre os principais candidatos. Mesmo assim, não conseguiu ultrapassar Flávio Bolsonaro.
Isso levanta a hipótese de que, o presidente pode estar próximo do limite de seu eleitorado mais fiel. Não significa que Lula seja incapaz de crescer, mas sua campanha agora precisa conquistar votos fora de seu campo político tradicional. E o problema é justamente esse. Os eleitores disponíveis, em sua maioria, escolheram candidatos que se apresentavam como alternativas aos dois principais nomes.
Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema receberam votos de brasileiros que, por diferentes razões, não quiseram escolher nem Lula nem Flávio no primeiro turno.
Agora, o presidente precisa convencer parte dessas pessoas de que votar nele é a melhor escolha. Não necessariamente porque concordem com seu governo, mas porque poderiam considerar Flávio Bolsonaro uma opção pior.
A primeira pesquisa Datafolha após o primeiro turno mostra a dimensão da dificuldade. Entre os eleitores desses quatro candidatos, 46% declaram preferência por Flávio, 32% por Lula e 15% por branco ou nulo.
Ou seja, Lula precisa crescer justamente em um eleitorado no qual seu adversário já aparece em vantagem.
Os apoios que já eram esperados. E os que nem tanto.
Ronaldo Caiado não demorou a declarar apoio a Flávio Bolsonaro. Augusto Cury, que havia criticado a polarização durante a campanha, também decidiu apoiar o senador, após negociar compromissos relacionados às propostas que defendia.
E ainda temos Romeu Zema. O ex-governador de Minas Gerais, que teve um desempenho bastante discreto nas urnas, também declarou apoio a Flávio. Uma decisão absolutamente surpreendente! (desculpem... é mais forte que eu)
Na prática, Flávio conseguiu reunir apoios importantes entre os antigos adversários, embora isso não signifique que os votos desses candidatos sejam automaticamente transferidos para ele.
O eleitor não pertence ao candidato. E talvez essa seja uma das questões mais importantes deste segundo turno.
Renan Santos escolheu não escolher
Entre os candidatos derrotados, Renan Santos adotou uma posição diferente. O candidato do Partido Missão declarou que não apoiará nenhum dos dois finalistas e deixou seus eleitores livres para escolher o que considerarem melhor. Ele próprio afirmou que não votará em nenhum dos candidatos.
A posição tem uma coerência política. Depois de construir sua candidatura criticando tanto o petismo quanto o bolsonarismo, declarar apoio a qualquer um dos dois poderia contrariar o discurso apresentado durante a campanha. Além de afastar seus apoiadores mais fiéis ao movimento.
Isso não significa que seus eleitores necessariamente seguirão a mesma decisão. Uma parcela pode votar em Lula, outra em Flávio, e há aqueles que simplesmente não pretendem escolher nenhum dos dois.
Minha impressão é que a abstenção, o voto branco e o nulo podem ter um peso importante nesse grupo. Mas ainda é cedo para afirmar que serão majoritários.
O curioso é que, mesmo sem declarar apoio, Renan passou a despertar interesse de setores que até pouco tempo dificilmente estariam próximos dele. Até Anitta começou a acompanhar suas movimentações nas redes sociais. A cantora passou a segui-lo no Instagram e compartilhou um conteúdo seu. Isso não representa apoio político formal, mas é um exemplo de como a disputa pelos eleitores da Missão alcançou espaços inesperados.
Nas redes sociais, apoiadores de Lula passaram a tentar estabelecer um diálogo com esse público. O objetivo é convencer eleitores que rejeitam o bolsonarismo de que, mesmo sem simpatia pelo PT, poderiam votar no presidente.
É uma estratégia compreensível. Mas convencer alguém que rejeita dois candidatos a escolher um deles não é uma tarefa simples. Principalmente quando esse eleitor votou no primeiro turno justamente para demonstrar que não queria nenhum dos dois.
Também começaram a circular noticias falsas (fake news), afirmando que Renan teria declarado apoio a Lula. O líder do MBL deixou claro que, não apoiará nenhum dos candidatos e teceu críticas às noticias e aos responsáveis no "Análises Renais", seu programa diário no canal do MBL.
E se a melhor estratégia de Lula não for conquistar votos?
Aqui entra uma hipótese que considero especialmente interessante. Se Lula realmente estiver próximo de seu teto eleitoral e tiver dificuldades para conquistar novos eleitores, talvez sua melhor oportunidade não esteja apenas em convencer quem votou em outros candidatos. Pode estar em fazer parte dos eleitores de Flávio Bolsonaro desistir de votar.
A lógica é simples. No segundo turno, não basta conquistar votos. Também importa quantos eleitores de cada lado efetivamente comparecem às urnas. Se um candidato mantém seus eleitores mobilizados enquanto parte dos apoiadores do adversário deixa de comparecer, o resultado pode mudar mesmo sem uma grande transferência direta de votos.
Nesse cenário, uma campanha voltada ao desgaste da imagem de Flávio Bolsonaro poderia ganhar ainda mais importância. Não seria necessariamente uma tentativa de convencer o eleitor bolsonarista a votar em Lula. Isso parece pouco provável entre os apoiadores mais fiéis.
A estratégia poderia ser aumentar a rejeição, explorar contradições, recuperar episódios negativos e produzir dúvidas suficientes para desestimular parte dos eleitores menos convictos do senador. É o que poderíamos chamar de uma estratégia de destruição de reputação, em que o objetivo não é apenas conquistar votos para si, mas enfraquecer a disposição de votar no adversário.
Vale ressaltar que essa é uma hipótese de análise, não uma afirmação de que exista uma estratégia oficialmente definida pela campanha de Lula nesse sentido.
Além disso, existe um risco evidente. Uma campanha excessivamente negativa pode produzir o efeito contrário, mobilizando ainda mais os eleitores de Flávio e reforçando o sentimento de perseguição política.
O mesmo vale para o campo bolsonarista, que pode tentar transformar a rejeição ao PT no principal motivo para comparecer às urnas.
No fundo, os dois lados conhecem muito bem esse mecanismo.
O segundo turno será decidido pela rejeição?
O Brasil chega ao segundo turno com dois candidatos que concentram grande parte dos votos, mas também enfrentam forte resistência de parcelas do eleitorado.
Flávio Bolsonaro tenta transformar a rejeição ao governo Lula em uma maioria eleitoral. Lula procura apresentar a continuidade de seu governo como uma alternativa mais segura ao retorno do bolsonarismo ao poder.
E, no meio dessa disputa, estão milhões de brasileiros que não escolheram nenhum dos dois no primeiro turno. Alguns vão mudar de candidato. Outros votarão no menos rejeitado. E uma parcela poderá simplesmente decidir não participar.
O problema é que, enquanto as campanhas calculam como conquistar, desmobilizar ou assustar eleitores, as discussões sobre o futuro do país continuam perdendo espaço.
A economia, a segurança pública, a educação, a reforma do Estado e tantos outros assuntos acabam subordinados à pergunta que domina a política brasileira: quem precisa ser derrotado?
O primeiro turno mostrou que o eleitorado está profundamente dividido. O segundo pode revelar até que ponto essa divisão é capaz de mobilizar ou afastar as pessoas das urnas.
No fim, talvez o próximo presidente não seja escolhido por quem apresentou as melhores propostas, mas por quem conseguiu despertar menos rejeição ou mais medo do adversário.
E, se esse for o caso, a maior derrota não será necessariamente de Lula ou de Flávio Bolsonaro. Será, mais uma vez, do debate sobre o Brasil que queremos construir.
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