EM CONTEXTO
O último ato antes do dia D*
Em um país polarizado. Representantes dos dois lados parecem defender as mesmas ideias, enquanto os indecisos são disputados com os mesmos argumentos. O futuro é uma incógnita, mas o Brasil tem pressa.
Amanhã é oficialmente o último dia das eleições de 2026. Ocasião em que saberemos quem será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos. Certeza não temos nenhuma. Na verdade, nem sei se podemos afirmar que as eleições acabam mesmo nesse dia 25, pois, nos últimos anos da política brasileira, tivemos a sensação de estarmos em campanha a todo momento. Todos os acontecimentos acabam sendo jogados para uma disputa eleitoral, que agora chega ao seu gran finale, pelo menos dessa etapa envolvendo Lula diretamente.
Lula chega à sua última eleição de uma maneira mais desconfortável do que estava acostumado. Nas últimas três eleições em que participou diretamente, havia chegado ao segundo turno tendo vencido a disputa no primeiro. Agora, além de os números não estarem a seu favor, ainda não parece ter muitas opções de onde tirar os votos necessários para virar essa disputa.
Independentemente dos números que as pesquisas vêm apontando, precisamos levar em consideração o cenário eleitoral do primeiro turno. Lula caminhava sozinho no campo da esquerda, não teve nenhum adversário com força suficiente para ter destaque em seu lado político. Ou seja, os votos ideologicamente alinhados à esquerda acabaram se concentrando em Lula. É claro que não podemos afirmar que esse foi o seu teto, pois parte dos eleitores dos candidatos que ficaram pelo caminho pode optar pelo voto no candidato do PT. Mas, como se trata de candidatos mais alinhados à direita, a tendência seria que Flávio aproveitasse mais esses votos, o que aumentaria ainda mais a sua vantagem.
Mas isso seria pensando em um caminho mais lógico e direto. A realidade acaba mudando um pouco o cenário.
O que decide os 30,7%?
Somando as ausências nas urnas, os votos brancos, nulos e os votos nos demais candidatos, temos mais de 48 milhões de eleitores, um número que pode alterar consideravelmente o resultado das eleições. Mas o que pode fazer o eleitor que está incluído nesse montante escolher um dos dois lados?
A pesquisa Quaest divulgada no dia 21 de outubro nos ajuda a entender um pouco essa movimentação. Entre os eleitores de Renan Santos, 51% dizem que vão votar em Flávio Bolsonaro, enquanto 25% pretendem votar em Lula. Outros 24% indicam voto branco, nulo ou abstenção.
Esse é um dado interessante, principalmente porque, na pesquisa anterior, 43% dos eleitores de Renan ainda demonstravam a intenção de não escolher nenhum dos dois candidatos. Agora, esse número caiu para 24%, enquanto Flávio passou de 40% para 51% e Lula de 14% para 25%. Ou seja, os dois candidatos conseguiram atrair parte desse eleitorado, embora Flávio mantenha uma vantagem considerável.
Entre os eleitores de Ronaldo Caiado, a vantagem de Flávio é ainda maior: 57% dizem que vão votar no candidato do PL, contra 21% que pretendem votar em Lula. Outros 22% indicam voto branco, nulo ou abstenção.
Já o eleitorado de Augusto Cury apresenta um comportamento diferente. Mesmo após o candidato declarar apoio a Flávio, 48% dos seus eleitores dizem que pretendem votar em Lula, contra 33% em Flávio. Outros 16% indicam voto branco, nulo ou abstenção, enquanto 3% permanecem indecisos.
Isso demonstra que o apoio de um candidato não significa necessariamente a transferência dos votos de seus eleitores. Cury declarou apoio a Flávio, mas a maior parte dos seus eleitores que já escolheram um dos finalistas parece estar caminhando para Lula.
A pesquisa BTG/Nexus, divulgada no dia 19, também aponta uma vantagem de Flávio na migração de votos de candidatos eliminados, embora apresente percentuais diferentes. No cenário geral, Flávio aparece com 50,3% dos votos válidos, contra 49,7% de Lula, uma diferença de apenas 0,6 ponto percentual, dentro da margem de erro.
Esses dados mostram um favorecimento maior a Flávio entre os eleitores dos candidatos eliminados, mas também demonstram que Lula conseguiu avançar nesse eleitorado. Quando falamos das abstenções, o cenário muda um pouco.
No primeiro turno, mais de 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado. Somando os aproximadamente 2,3 milhões de votos brancos e 3,6 milhões de votos nulos, temos um grupo de quase 39,5 milhões de eleitores que não escolheram nenhum candidato.
E é justamente nesse grupo que Lula encontra uma possibilidade de crescimento.
Segundo a Quaest, entre aqueles que não compareceram às urnas ou votaram em branco ou nulo no primeiro turno, 40% dizem que pretendem votar em Lula, enquanto 36% indicam voto em Flávio. Outros 21% afirmam que pretendem manter o comportamento do primeiro turno, e 3% ainda estão indecisos.
A diferença de quatro pontos percentuais favorece numericamente Lula, mas está dentro da margem de erro desse grupo de entrevistados.
O que chama a atenção é que, na pesquisa anterior, Lula tinha 43% nesse segmento e Flávio, 38%. Ambos perderam espaço, enquanto a parcela que pretende continuar sem escolher um candidato aumentou de 17% para 21%.
Isso pode demonstrar uma dificuldade das duas campanhas em convencer justamente quem não participou diretamente da disputa no primeiro turno.
Flávio moderado ou convencido?
Flávio Bolsonaro tentou manter a ordem na campanha do segundo turno, procurando não se expor a fim de preservar a vantagem já obtida nas urnas. Porém, sua atuação no debate da Band, no último domingo, gerou algumas repercussões negativas. O tom meio arrogante, a evasão nas respostas e a falta de propostas convincentes podem ter prejudicado um pouco sua imagem.
Isso levou a campanha a adotar novas medidas na última semana, já pensando no debate da Globo. A principal foi afastar Pablo Marçal da linha de frente e trazer Tarcísio para mais perto.
Marçal, além de ter tido grande influência na postura de Flávio no debate, também comprou briga com eleitores de Renan Santos, o que pode ser prejudicial para a campanha de Flávio. Renan ainda tem uma parcela considerável de eleitores que dizem optar pelo voto nulo, branco ou pela abstenção. Essas brigas desnecessárias podem levar ainda mais eleitores para a neutralidade ou até para o voto em Lula.
O clima de "já ganhou" não vem só de Marçal. Demais apoiadores de Flávio, como Pavanato, têm adotado posturas arrogantes também.
No debate da Globo, Flávio mostrou uma postura diferente, com um tom mais sério e moderado, buscando falar mais com o eleitor. Embora tenha gerado uma repercussão negativa ao chamar Lula de "nove dedos".
Ao responder a Lula sobre o salário mínimo, Flávio utilizou a expressão de que o presidente "dá com uma mão e tira com os nove dedos". Lula parece não ter reagido à expressão naquele momento, mas, no bloco seguinte, cobrou um pedido de desculpas de Flávio, chamando-o de "miliciano".
Lula afirmou que não permitiria que Flávio o chamasse daquela maneira e lembrou que perdeu o dedo em um acidente de trabalho, aos 17 anos. Também criticou a trajetória profissional do adversário.
Flávio se retratou na sequência, pedindo desculpas e afirmando que não tinha a intenção de ofender o presidente.
Esse provavelmente será um dos temas mais comentados sobre o debate.
Outro ponto que chamou a atenção foi a facilidade com que Flávio passou a concordar com propostas defendidas por Lula. Prometeu manter programas sociais, como o Bolsa Família e o Pé-de-Meia, defendeu a valorização do salário mínimo e até se mostrou favorável à proposta de transporte público gratuito aos fins de semana. Essa última, inclusive, havia sido criticada por ele poucos dias antes.
É claro que concordar com determinadas políticas públicas não significa defender o mesmo projeto de governo. Mas chama a atenção que, em uma eleição marcada por tamanha polarização, o candidato que se apresenta como alternativa ao atual governo esteja assumindo compromissos tão semelhantes aos do adversário.
E aí fica uma pergunta: se é para manter tantas propostas de Lula, qual é, afinal, a diferença entre votar em um ou em outro?
Flávio parece ter buscado uma moderação para conquistar eleitores fora da sua base, mas essa estratégia também levanta dúvidas sobre quais mudanças efetivamente pretende promover. Afinal, a eleição deveria ser uma disputa de projetos para o país, e não apenas de nomes que vão administrar políticas semelhantes.
A estratégia da esquerda
Apoiadores de Lula têm buscado ampliar o apoio ao candidato petista. A entrada de André Janones como peça principal do movimento de "vira voto" parece estar sendo uma esperança para Lula.
Em poucas horas, o canal de WhatsApp criado pelo deputado já contava com milhões de seguidores. O canal tem sido utilizado como ponto de partida para campanhas em todas as redes sociais. No X, a aba "Assuntos do Momento" vem sendo dominada por temas relacionados à campanha do PT, muitas vezes com a maioria dos assuntos entre os dez mais comentados.
Renan Santos tem sido um dos principais alvos da esquerda. Apoiadores têm buscado os eleitores da Missão, e até José de Abreu chegou a publicar um texto de desculpas por brigas passadas com integrantes do MBL. Mas os apoiadores mais engajados do grupo de Renan dizem estar optando pela neutralidade mesmo.
No fim, a maior esperança de Lula parece ser convencer os eleitores que não compareceram no primeiro turno, pois é aí que vemos um número maior de possibilidades: são mais de 33 milhões de eleitores.
No debate da Band, Lula pareceu mais perdido, não conseguindo se impor em suas ideias, além de a postura de Flávio ter atrapalhado seu desenvolvimento. A atuação de Lula lembrou a de Biden no debate que antecedeu sua retirada da última eleição americana. A diferença é que não dá tempo de tirar Lula do pleito.
Na Globo, Lula parece ter se recuperado um pouco. A questão dos "nove dedos" pode tê-lo ajudado a ganhar algum espaço, mas sua postura, de um modo geral, não parece ter tido muita relevância pensando em virar votos indecisos.
O debate acabou sendo, mais uma vez, cada um falando com o seu público e com pouco poder de convencimento fora do seu campo. Embora fique a sensação de que Flávio se saiu um pouco menos pior.
Neste domingo saberemos o rumo que o Brasil vai tomar pelos próximos quatro anos. Na esperança de que a primeira frase deste post faça sentido e possamos ver um campo político menos voltado às eleições e mais preocupado em resolver os problemas reais do país.
* desespero
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